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O Falso paulista PDF Imprimir E-mail

Quando o ônibus estacionou no ponto de parada, uma multidão se fazia presente, se apertando na porta de saída dos passageiros, obstruindo a passagem dos mesmos. Algum estranho pensaria ter viajado com alguém famoso e os fãs se agitavam em busca de autógrafo. Mas não. Uns esperavam parentes ou amigos; outros estavam ali apenas por curiosidade, falta do que fazer, atrás do que falar.

Anízio Oliveira esperava o seu velho e bom amigo Uelton, que vinha de uma curta temporada em São Paulo. Uelton era um viajante inveterado. De tanto viajar para a terra da garoa, em uma dessas viagens, ao parar em uma lanchonete de beira de estrada, o balconista quis saber:
- Desta vez você está indo ou está voltando?
Mal desceu do ônibus, Uelton localizou o seu amigo entre a multidão. Sorrisos de parte a parte, abraços afetuosos, promessa de farra memorável:
- Anízio, ó meu, vem cá dá um abraço neste corintiano velho de guerra, sabe como é que é né meu!? Vamos arrebentar a boca do balão, esta festa vai ser do caralho, desbaratina meu, dá licença, falou?!
Anízio ficou meio encabulado com a gíria do seu amigo, principalmente em saber que o mesmo agora era “corintiano velho de guerra”. Desde quando? Antes de ir para São Paulo era fanático pelo Bahia, e de repente vira a casaca?! O seu amigo estava muito estranho...
- Ô Anízio, vamos lá na casa do velho, quero batê aquele banho cara, tô mesmo precisando, este lugar é longe pra caramba meu, e depois vamos dar um rolé pelas quebradas pra gente ver as mina, você sabe né, meu? Meu partido é mulher. Trouxe um presentinho pra você cara, uns litros de pinga da boa, pinga paulista: velho barreiro, cinqüenta e um e fogo paulista. Vamos tomar todas aí, cara.
E lá foram eles. Anízio todo empolgado com a presença do amigo; e este cheio de novos hábitos, costumes e palavras, querendo mostrar aos conterrâneos tudo o que havia aprendido em plagas sulistas.
Era uma noite de festas. Pela primeira vez acontecia uma micareta na cidade, aquele carnaval fora de época. O prefeito, após breve discurso político justificando a contratação apenas de um trio elétrico e as poucas atrações da chamada axé music, pediu paz, pouca bebedeira (como se fosse possível) e ainda sugeriu ao delegado que jogasse no lixo a chave da cadeia, como prova de confiança nos foliões.
Para o povo era uma novidade. Afora a festa da padroeira, em fevereiro, não havia outros eventos festivos durante o ano, salvo alguns saraus dançantes que Zé Grosso promovia em seu bar, batizado de Clube Social Oca Toca.
A iluminação da praça ofuscava o brilho da noite de lua cheia. Os músicos afinavam os instrumentos no trio elétrico e o povo ia se chegando acanhado, tímido. Muitos ali estavam vendo a invenção de Dodô e Osmar pela primeira vez. Que maravilha! Que potência! De repente, vindo pelo beco da Prefeitura, o primeiro folião fantasiado, trajando camisa florida, tipo turista americano na praia de Copacabana, óculos Ray Ban, bermudão imitando os cantores de hip-hop, meias até a altura dos joelhos, sapato bico fino, tão bem lustrado que refletia a luz das estrelas. Que bicho era aquele?! Anízio, lata de cerveja na mão, reconheceu o amigo Uelton. A vaia e a gozação se fizeram mais forte do que a sonoridade eletrizante do trio. O amigo Anízio, que jurara amizade eterna horas antes, se escondeu no meio do povo e saiu de fininho, abandonando o amigo à turba gozadora. Outra alternativa não encontrou Uelton, senão a de retornar para casa e trocar de roupa.
“Vou ter que me vestir igual a estes tabaréus, não tem jeito, estes caras criados na roça não entendem porra de nada de moda, trago uma novidade do caralho e eles me vaiam, dá licença né meu?!” - pensava enquanto se trocava.
Vestido de acordo com a realidade local e refeito das vaias, tomou um gole de coragem e foi às ruas. Passou despercebido. Atravessou a praça e foi direto matar as saudades do bar de Vieira. A conversa no bar era sobre a festa: trio elétrico, banda e foliões. Alguns preocupados com ladrões, pois havia muita gente de fora, muita cara estranha.
- Vieirinha meu filho, faz um favor para este seu criado: solta uma Brahma Chopp estupidamente gelada, meu! – pediu Uelton, forçando o sotaque para impressionar.
Vieira atendeu o seu pedido lhe dispensando atenção especial, por saber que quem chega de Sampa vem mais endinheirado do que os da terra.
Conversa vai, cerveja vem e surge a natural necessidade de ir ao banheiro tirar água do joelho. No retorno, bexiga aliviada, encontra o seu amigo Anízio Oliveira.
-Ô rapaz, estou te procurando há um tempão. Vamos lá no Oca Toca que Zé Grosso tá nos esperando com uma rabada e cerveja gelada.
Os dois amigos subiram rua acima conversando descontraídos. Outras pessoas também seguiam em direção ao bar mais freqüentado da região. A calçada do Oca Toca estava sendo reformada e havia uma enxada obstruindo a passagem, para ninguém estragar o trabalho do pedreiro.
- Quié que é isso, ô meu? Para que serve este pedaço de pau colocado na calçada? – indagou o projeto de paulista, esquecido dos seus tempos de ajudante de pedreiro. O irreverente Zé Grosso ouviu calado.
Uelton, preocupado em impressionar com seu sotaque e apagão mental, se descuidou, pisou em falso sobre a lâmina da enxada que levantou o cabo e atingiu em cheio a sua testa, deixando-o zonzo, fazendo-o tropeçar nas próprias pernas e cair de cara no cimento fresco. Riso geral.
- Peste de enxada! É assim que você nos recebe, ô meu? Agora tô todo melecado!
- Viu pra que é que serve agora, cabra safado!? – exclamaram todos, desafogando o protesto entranhado na garganta. Um deles era o seu amigo Anízio Oliveira.

Nome do Autor:   Luiz Eudes C Andrade           

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Cidade: Sátiro Dias         

Estado: Bahia

 
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