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Eu tenho certeza de que praticamente só pisquei os olhos e, num passe de mágica, já estava aqui, diante de um bolo de aniversário.

As chamas das velas eram hipnóticas e bem longe se ouvia as palmas e vozes cantando aquela música tradicional. Nego-me a acreditar que a minha vida tenha passado tão rápido e que poderia extinguir-se a qualquer momento. Setenta anos é uma idade avançada e, para piorar, uma doença no pulmão me acometia. A única voz clara que chegava aos meus ouvidos era a de Amanda, minha linda netinha de dez anos. Seus cabelos eram loiros como palha e seus lindos olhos azuis me fitavam com alegria. Ela batia palmas sem parar e, com um lindo sorriso, gritava para mim.

-Faz um pedido e assopra as velinhas, vovô! O que o senhor mais quer na sua vida, vovô? O que eu mais quero? Se não posso trazer sua avó, sua mãe e seu pai de volta daquele terrível acidente, então só tenho um pedido a fazer: não posso morrer e deixar a minha neta sozinha nesse mundo podre, uma criança que venho cuidando e educando sozinho nos últimos cinco anos, só nós dois saímos vivos daquele acidente – pensei – Eu vou fazer o pedido, que Deus me ajude. “Eu quero rejuvenescer”, cerrei os olhos com força e assoprei as velas. Houve uma pequena explosão e todos na sala ficaram imóveis. Depois o silêncio e, logo no momento seguinte, como o som de uma fita rebobinando, tudo voltou ao normal. Palmas, assobios e todos gritando o meu nome: Paulo!

Assim que todos se retiraram, fui colocar Amanda na cama para em seguida tomar um banho. Minha coluna ardia como ferro em brasa e no momento em que me deitei, senti dores em todas as juntas do corpo. Fiquei ali imóvel, olhando para o teto, pensando no passado e na minha netinha. Depois pensei no pedido. Dei um sorriso e adormeci em um mergulho suave, um cheiro doce me invadiu. Eu estava deitado em um chão de terra. Assim que me levantei percebi que eu estava em uma linda mata. Violetas, lírios, jasmim, girassóis e flores que jamais vi explodiam em diversas cores. Uma luz me guiou por um caminho sinuoso e, no fim deste caminho, havia uma linda estátua de um anjo com asas enormes. Ele soprava uma trombeta por onde caia uma água límpida e cristalina. Era uma linda fonte onde, naquele momento, uma mulher se banhava. Aproximei-me, peguei em suas mãos e ela me ajudou a entrar na água. Um frescor invadiu o meu corpo. Olhei para as minhas mãos e estavam sem rugas. Acordei em um sobressalto da cama e olhei para as minhas mãos no mesmo instante.

-Claro que elas estão enrugadas! Acho que já estou ficando senil. Rejuvenescer... Onde já se viu isso?

Tomei um banho e desci para fazer o café. O engraçado é que já não estava sentindo mais aquela terrível dor na coluna e nas juntas, que me atormentava tanto. Preparei ovos e torradas com mel, Amanda adorava. Ela desceu do seu quarto e veio logo me beijar.

-Oi vovô, bom dia! Dormiu bem?

-Dormi tão bem que já não sinto todas aquelas dores.

-Que bom vovô – disse ela com um lindo sorriso.

Logo o ônibus escolar buzinou. Amanda correu para pegar a minha bengala, pois sempre vou com ela até o ônibus. Naquele dia eu rejeitei a bengala, e no outro dia também, e no outro. Nunca mais precisei daquela maldita bengala. Voltei ao médico e ele me pediu para fazer uma bateria de exames. No dia em que fui levar os resultados, o médico ficou cerca de meia hora olhando para eles. Chegou a olhar os exames de ponta cabeça e ao contrário.

-Só tenho uma coisa a dizer, senhor Paulo, só pode ser milagre! O senhor está curado do câncer no pulmão. Para uma pessoa que fumou durante cinqüenta anos da vida, seu pulmão está perfeitamente saudável. Mas claro, vamos fazer todos os exames novamente só para ter certeza, tudo bem?

Médicos... não acreditam em milagres ou coisas parecidas, acham que para tudo se tinha uma explicação lógica. Fiz os exames novamente e realmente eu estava curado. Fui comemorar com Amanda em um parque de diversões. Comemos algodão doce e andamos de montanha russa. Eu estava com uma energia maravilhosa. Uma certa noite, Amanda me interrompeu no meio de uma história que eu contava para dizer que eu estava mudando e ficando mais jovem e bonito. Ela já estava percebendo.

Passaram-se dezoito anos e Amanda, agora com vinte e oito anos, já havia se casado e me dado um netinho chamado Pedro. Ele tinha um aninho e eu seu bisavô já tinha oitenta e oito, com cara de cinqüenta. Claro, muitas pessoas próximas estavam percebendo a mudança em minha aparência. Muitos me perguntavam se eu havia feito plástica ou descoberto algum produto milagroso, mas as mudanças estavam sendo tão radicais, que logo fui obrigado a me mudar de endereço para conseguir um mínimo de privacidade. Voltei a estudar e logo fiz novos amigos, muitos deles me achavam um tanto antiquado por eu beijar as mãos das damas e falar um português um tanto ultrapassado. Apelei para a minha neta, que tinha hoje trinta e cinco anos, a mesma idade que eu aparentava, era casada e tinha um filho lindo. Aprendi muito com ela.

Fui ao shopping e comprei muitas roupas, entrei numa sapataria e uma vendedora me fez comprar um tênis que parecia mais uma bota de astronauta, mas me garantiu que estava na moda. E tenho que admitir que realmente o tênis era muito mais confortável do que aqueles sapatos duros que eu usava. Namorei uma linda garota durante dois anos, seu nome era Camila, terminei depois que descobri uma traição. Logo pensei na minha falecida Lucia. Nunca mais iria encontrar mulher como aquela, fiel e dedicada. Minha Lúcia era uma mulher de garra. Mas é claro que depois de Camila conheci muitas outras, não perdi um só momento de minha nova juventude. Pois sabia que logo eu seria tão jovem que não conseguiria mais nenhuma garota.

Completei cento e dez anos e minha aparência era a de um garoto de vinte anos. Fui morar com a minha neta e com o meu bisneto logo após ela ter se separado do marido. Mesmo com os seus cinqüenta anos, Amanda ainda mantinha a sua beleza intacta. Era muito respeitada por ser uma grande promotora. Eu e o meu bisneto, Pedro, vivíamos saindo com a turma. Tinha festa toda a semana e era muito bom, eu já tinha me acostumado a baladas e shows de rock. As festas da minha época eram tão chatas e bregas. Nas festas de hoje em dia as mulheres ficam muito mais à vontade e as músicas são muito mais dançantes. Uma vez eu e Pedro fomos  a uma festa rave que durou três dias. Foi uma loucura para nós e também para Amanda, que já havia acionado a polícia e dado parte de desaparecimento. Ela nos passou um grande sermão que não deixou de ser engraçado para mim. “Uma neta dando um sermão em seu próprio avô por irresponsabilidade”. Ela tinha toda a razão. Só que agora eu tinha voltado a ser um moleque e às vezes, tinha atitudes de moleque. Os anos se passaram e meu bisneto, foi estudar nos Estados Unidos. Lá  ele se casou com uma americana. Eu, por sinal, já não conseguia mais nenhuma garota. Já havia me tornado o típico fedelho. O que eu arrumava, no máximo, era um beijinho no rosto ou um apertão na bochecha. E como eu odiava isso! Sempre que Amanda falava com Pedro pelo telefone eu escutava na madrugada o seu choro de saudade. Esta noite ela estava chorando. Fui até o quarto dela e ficamos conversando sentados na cama. Logo seu lindo sorriso voltou aos seus lábios.

-Vovô? Que estranho... não consigo mais te ver assim! Eu vejo você como...

-Um filho? – eu disse sorrindo.

-Sim.

-O importante é o amor que sentimos um pelo outro, querida .

Ela sorriu.

-Que engraçado, um adulto em um corpo de criança. É fantástico!

Naquela noite dormimos abraçados.

Era uma linda manhã, Amanda me chamava a todos pulmões.

-Paulinho! Paulinho, é melhor aparecer!

Ela estava brava. Eu tinha feito um estilingue maravilhoso com tripa de mico e descobri que a minha mira não era tão boa assim. Acabei acertando o vidro do carro do senhor Otávio. Levei uma bronca da minha neta e fiquei de castigo. Como pode uma criatura de cento e vinte anos ficar de castigo por ordem de sua neta?

Eu era uma criança de uns sete anos quando Amanda entrou em casa com uma grande caixa, embrulhada em um papel amarelo preso com uma grossa fita azul.

-O que é isso, Amanda?

-É pra você, abra!

Fui logo rasgando o papel cheio de curiosidade e empolgação. Um largo sorriso estampou o meu rosto quando vi um vídeo game. Viver a vida ao contrário era muito diferente, a sensação de ir ficando mais jovem a cada ano era muito boa. Em vez de perder energia com os anos você a ganha, isso sem contar que dificilmente contrai uma gripe durante esse meu processo. O estranho é que, mesmo com a mente de um adulto, eu sentia emoções de uma criança. Peguei o gosto pela brincadeira novamente, talvez por que quando se fica velho se volta a ser criança e o que eu mais queria neste momento era um vídeo game desses avançados. Amanda me deu um.

Ela estava ficando velha, com sessenta e quatro anos e eu, cento e vinte e cinco (com aparência de cinco anos). Fui conversar com ela, que estava sentada na sala. Seu rosto estava triste e preocupado. Imaginem um toquinho de cinco anos conversando como gente grande. Esse era eu.

-Oi querida? Tudo bem?

-Tudo bem, Paulinho.

-Falta uma semana para o seu aniversário, Amanda, você poderia tentar fazer o pedido.

-Não sei se quero isso para mim Paulinho! Não sei se quero rejuvenescer e ver meu filho e neto envelhecerem enquanto eu fico mais nova. Também não sei se iria funcionar comigo.

-Essa é uma decisão sua, querida. Ninguém vive para sempre, estamos aqui de passagem para nos encontrar em um mundo muito melhor que este.

-Se o senhor acredita em um outro mundo, por que quis viver a vida novamente?

-Para não morrer velho, querida. Eu nunca tive medo da morte e sim da velhice. Também temia deixar você sozinha e desprotegida, pois eu era a sua única família. Eu acho que o que eu sentia e sinto por você são coisas que me proporcionaram esse milagre. Deus me deu a oportunidade de poder te criar.

Ela me abraçou forte e me beijou. Ficamos ali por um bom tempo, sem falar mais nada.

Amanda fez um lindo bolo de aniversário, brigadeiros e salgadinhos. Pedro veio dos Estados unidos com sua família e fiquei muito feliz ao ver o rosto iluminado de Amanda ao ver o filho e conhecer a neta de quatro anos. Fiquei maravilhado com Angélica, a minha tataraneta. Ela era loira e tinha os olhos azuis como o céu, assim como os da avó. Ela se aproximou de mim meio tímida.

-Vamos brincar?

Eu fui brincar com ela e aproveitei cada momento. Fiz Angélica sorrir e me abraçar. Ela gostou de mim e nesse momento percebi que esse dia nunca iria se apagar da minha memória.

Estávamos cantando “Parabéns Pra Você” e era a hora de apagar as velinhas. Eu e Angélica batíamos palmas em pé, cada um em uma cadeira. Amanda me olhou como se perguntasse algo. Foi quando eu gritei:

-Assopre as velinhas e faça um pedido, Amanda. Algo que você queira muito. Pense bem, querida!

Ela sorriu, fechou os olhos e assoprou com toda a sua força.

Pedro ficou com sua família por uma semana em nossa casa. Nunca vi Amanda mais feliz, vivia cantarolando pela casa.

-Apesar dos sessenta anos estou me sentindo muito jovem – dizia ela a toda hora.

Logo, Pedro foi embora. Amanda ficou muito triste e só vivia agarrada nas fotos que Pedro tinha dado para ela.

 

Os anos mais uma vez foram passando. Eu já estava como uma criança de dois anos e falava somente algumas palavras com muita dificuldade. Palavras fáceis eram o que eu sempre procurava. Amanda cuidava de mim com muito carinho, mesmo com sessenta e oito anos. Ela estava velha, enrugada. Acho que o pedido não funcionou para ela.

O tempo mais uma vez passou e agora eu estava como uma criança de um ano, a diferença é que eu entendia tudo o que as pessoas falavam. Eu ainda raciocinava como um adulto, mas não conseguia falar e nem andar. Amanda entrou no meu quarto e se aproximou do berço.

-Não sei se você me entende, Paulo. Mas quero dizer pra você que não fiz o pedido, não quero viver duas vezes a minha juventude, eu quero morrer deste jeito mesmo. Às vezes fico aflita, por não saber como você está se sentindo agora e também por não saber como será o seu fim. O que vai acontecer com você, vai virar pó ou desaparecer no ar como num passe de mágica? Acho que vamos nos encontrar em breve em um outro mundo, não é vovô? Vamos encontrar a vovó, a mamãe e o papai. Vai ser maravilhoso.

A única reação que me foi possível foi sorrir para ela. Ela abaixou e me beijou a testa com muito carinho.

Em uma bela manhã, Amanda entrou no meu quarto e se aproximou do berço. Ela acariciou o lençol e ficou ali imóvel me olhando. Lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto enrugado. Eu ainda pude sentir uma lágrima caindo em meu rosto antes que tudo em minha volta ficasse escuro. Amanda cantou uma canção de ninar enquanto estava ali, olhando para um feto sem vida entre as roupas e lençóis do berço.

Autor: Ricardo Alonso

 
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